É um berra-berra esse assunto do “apagão”. É gente dizendo que governo “se queimou”, outra gente tentando provar que não é bem assim... Às favas, já apagou e acendeu. E antes de acender fiquei pensando nas pessoas no escuro... Pensando em tantos casos...
Imagine aquele que não tem tempo para si mesmo, desde o momento em que acorda precisa de algum aparelho elétrico para fazer alguma coisa, qualquer coisa. Não podendo ligar o computador, sem televisão para saber notícias, com seu celular descarregado – de tanto ligar para comprovar se mais pessoas estavam na mesma situação. Ele ali, dentro do vazio escuro, enxergando dentro dele somente. O incômodo ao sentir que não tinha “nada” para fazer. Porque para fazer ele precisava de qualquer coisa externa, melhor qualquer coisa que já era sua extensão, sendo coisa sua e sendo si mesmo simultaneamente. A sua segunda mente, a sua segunda voz, o seu segundo braço, o seu segundo eu... Que tortura não enxergar nada e ter de ver a si mesmo, e somente dentro de si! Tentando alcançar, a sua frente, uma luz e ver apenas breu.
E naqueles que foram obrigados a permanecer durante um curto espaço de tempo com quem nem conhece? Trancafiados nalgum lugar... Num elevador, no túnel do metrô, nos trilhos do trem... Irritados com a presença alheia, ter de sentir – sem quase ver – as pessoas que o cercam, sem saber quem são... Vendo a bateria do celular acabar e junto com ela a chance de continuar a falar com uma voz conhecida e agora tão distante... Suportar a companhia de pessoas que estão próximas, detestando-as a cada minuto rodante. Tudo que se queria era alguém conhecido por perto e ali o desconforto da presença de estranhos... Que sufoco!
E a luz voltou e tudo o que se fez foi esquecer aquela noite horrível, cuja provação parecia ser o fim dos tempos: condenados a deparar-se com um único material, a gente...
E deixemos no baú do esquecimento aquele dia cruel, onde todas as invenções elétricas não tiveram nem vez e nem voz... O único grito era do silêncio e da solidão que assombravam através das companhias desconhecidas, chamadas de "outro" e de "eu"...